O eleitor, a estrutura e o cisne negro
Por Adriano Oliveira – Cientista político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa e Estratégia.
Logo após o atentado contra Donald Trump choveram análises afirmando que o ex-presidente seria beneficiado positivamente. Como de costume, em cada fala ou texto, uma hipótese. Pesquisa IPSO divulgada em 17/07/2024 revelou que o atentado não interferiu na intenção de votos de Joe Biden e Donald Trump.
Não posso afirmar, considerando apenas a intenção de voto, que o atentado não influenciou os sentimentos dos eleitores. Mas posso dizer que o atentado não interferiu, por ora, na escolha do eleitor. Quem era Trump seguiu sendo. Quem era Biden também. Por sua vez, será a pesquisa qualitativa que dirá qual foi a influência no votante. Neste caso, uma hipótese: O atentado serviu para consolidar o voto e a rejeição em ambos os competidores.
O que motiva a mudança de voto do eleitor? São os eventos. Eles podem, obviamente, construir, mudar ou consolidar a preferência do votante. Os analistas estavam corretos em lançar a possibilidade de que a tentativa de assassinato ao ex-presidente americano poderia influenciar a opinião pública. Todavia, são as pesquisas, qualitativa e quantitativa, que revelam se ocorreu ou não interferência. O analista comete o equívoco quando despreza a pesquisa e assevera que a interferência acontecerá.
A opinião pública é liquida. Faço essa afirmação baseado nas obras do sociólogo Zygmunt Bauman. A crença, os desejos, e os sentimentos de hoje podem não ser o do amanhã. A história da opinião pública está cheia de exemplos. Na minha obra “Qual foi a influência da Lava Jato no comportamento do eleitor: Do lulismo ao bolsonarismo” (2020) revelei como o lulismo sofreu enfraquecimento devido às ações da Lava Jato.
Existem três momentos do lulismo: 1) A construção (2002 a 2006); 2) A consolidação (2006 a 2008); 3) O auge (2009 a 2010). A partir de 2012 começa o declínio e em 2015, o forte enfraquecimento. Em 2017, a recuperação lenta. Em razão da Lava Jato, a era de Ouro do lulismo na opinião pública (2009 a 2010) deve não voltar – Hipótese. O bolsonarismo teve o seu auge em 2018 e se mantém estável até hoje. Certamente, nunca alcançará o auge do lulismo. Portanto, o bolsonarismo não terá a força que o lulismo já teve. Eventos como a pandemia impossibilitou que o bolsonarismo ampliasse a sua força.
Em 13 de agosto de 2014, o então candidato a presidente da República, Eduardo Campos (PSB), morre em trágico acidente de avião. Logo após o evento, o seu candidato a governador, Paulo Câmara, cresceu e venceu a eleição. As pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência revelavam que independente da tragédia, Câmara tenderia a vencer o pleito em razão da alta popularidade de Eduardo Campos. Todavia, o acidente inesperado acelerou e consolidou a vitória de Câmara.
Caso não tivesse ocorrido o atentado contra Jair Bolsonaro em 2018, ele venceria a eleição? O “se” faz parte da análise política. Na minha obra, a qual aqui já me referi, afirmo que independente da facada, existia conjuntura fortemente favorável ao sucesso eleitoral de Jair Bolsonaro. Revelei, também, que o ataque ao ex-presidente reforçou as condições favoráveis à vitória do ex-presidente.
Mortes, tragédias, atentados, e outros acontecimentos, podem mudar e reforçar a opinião do eleitor. Em razão disto, em qualquer análise política, o imponderável (cisne negro) deve ser considerado, pois eles importam muito. Existe, claro, conjunturas consolidadas (X) que facilitam a predição eleitoral. Mas a conjuntura X pode ser modificada em razão de um dado evento. Eventos podem, também, consolidar a conjuntura. Portanto, perante um evento, uma pesquisa.
