Frei Gilson e a miopia da esquerda

Na década de 80, durante a transição do período militar para a democracia, a esquerda brasileira tinha duas pautas: 1) Abertura democrática; 2) Fortalecimento do Estado para combater a desigualdade social. Ambos foram conquistados. Apesar da esquerda não reconhecer, FHC foi o presidente da República que deu início a agenda da esquerda no Brasil. Injustamente, o líder do PSDB, era definido como neoliberal.
Em 2002, Lula assume a presidência da República. Para a esquerda, lá estava o seu verdadeiro representante. Lula não abandonou as premissas econômicas do governo FHC, como responsabilidade fiscal e controle da inflação. Fazendo jus a fama de ser um político da esquerda, a principal liderança do PT criou meritório Estado de bem-estar social.
Após as eras Lula, a esquerda perdeu rumo. A luta pela democracia e efetivo Estado de bem-estar social já estavam superados, pois foram conquistados. No ano de 2014, a esquerda, em especial o PT, foi atingida pela Lava Jato, e adquiriu fama de corrupta. Com o impeachment da presidente Dilma em 2016, o lulismo e o PT, sustentáculos da esquerda, entram em declínio. Na eleição de 2018, a esquerda, em razão do lulismo, mostra força, mas perde a eleição para Jair Bolsonaro, considerado de direita. Uma observação: Bolsonaro é um ator político da direita não democrática.
Com a perda de rumo, a esquerda optou pela pauta identitária, assim como a direita bolsonarizada. Ambos, importante salientar, são identitários, e, por consequência, excludentes. O identitarismo possibilita a exclusão do outro. Ele não convive com as diferenças e, infelizmente, às vezes, observamos a intolerância. Esclareço que o identitarismo da direita ganha tração em virtude do bolsonarismo e do identitarismo da esquerda.
O que a esquerda propõe hoje? Nada. Insiste no identitarismo. Qualifico esta esquerda como míope. Ou seja: Não consegue enxergar as novas demandas do novo Brasil e por falta de compreensão sociológica da dinâmica social contribui para o enfraquecimento eleitoral do lulismo. Ressalto que o lulismo não é fenômeno identitário. Ele é manifestação econômica e democrática.
No ano de 2018, ocorreu a manifestação EleNão contra Jair Bolsonaro. Acreditei que ela poderia barrar a vitória de Jair Bolsonaro. Mas a direita bolsonarista, sábia, vale salientar. transformou a manifestação da esquerda em instrumento para a vitória de Jair Bolsonaro. Importante destacar que apesar de reconhecer limites de sabedoria em Jair Bolsonaro, ele descobriu que num país majoritariamente cristão e católico, e sem perder de vista os evangélicos, era necessário jogar a esquerda para o inferno. Bolsonaro foi batizado no Rio Jordão em 15 de maio de 2016.
Nas últimas eleições presidenciais, os evangélicos ganharam destaque em virtude de serem os responsáveis pela derrota do lulismo em 2018 e pelo excelente desempenho eleitoral do bolsonarismo. Desde 2018, grande parte dos evangélicos deixam claro reprovações à agenda da esquerda. O presidente Lula tem hoje alta reprovação entre os evangélicos. A esquerda míope ainda não descobriu que os evangélicos importam para vencer eleições presidenciais.
Os católicos também importam e contribuíram para a volta de Lula à presidência da República. Mas, a esquerda míope decidiu criticar o maior fenômeno contemporâneo do catolicismo: Frei Gilson. Segundo a esquerda míope, e não quero ser generalista, este católico que tem milhões de seguidores nas redes sociais, é conservador e bolsonarista. Em vez da esquerda míope se aliar a Frei Gilson, optou por colocá-lo no debate identitário, o qual enfraquece eleitoralmente o lulismo. Por sua vez, Jair Bolsonaro e vários atores da direita bolsonarizada optaram por defender o Frei Gilson e disseminar que a esquerda é anticristã.
No mundo do século XXI, o identitarismo está presente em qualquer lugar, assim como pautas religiosas. Diante desta realidade, como lidar com ela? O enfrentamento às identidades e as crenças contrárias não é a melhor estratégia para a esquerda. A esquerda perde fôlego ao optar pelo confronto. O melhor para a esquerda brasileira é repetir o lulismo das suas eras passadas: prover bem-estar econômico e resolver os problemas do dia a dia da população brasileira.
Por Adriano Oliveira – Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia
